sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O stress pós-traumático dos Festivais de Verão

Voltar de um festival de Verão é como regressar da guerra. Acordamos suados de noite, com flashbacks dos concertos, e ouvir música despoleta em nós o gesto reflexo de colocar a mão ao alto e acender um isqueiro. O mundo parece igual, nós é que voltamos diferentes. A pulseira é a prova da bravura em combate, e mantém-se no pulso até começar a ser absorvida pela nossa pele e se tornar uma tatuagem: pode dizer "Vilar Mouros" ou "Festival do Panda", mas bem que podia dizer "Guiné 1969". Tal como na guerra, os festivais de Verão levam milhares de jovens a abandonar as suas casas, rumo a alguns dos locais mais remotos do território português (ou seja, tudo o que fique a 1 hora de distância de Lisboa ou do Porto). Em termos musicais, um festival de verão é mais desconfortável que aquela cena da "Laranja Mecânica" e faz bem mais vítimas que um concerto da Ariana Grande. 

O regresso à rotina depois de um festival pode ser difícil, e há aspectos da vida quotidiana de que já não nos lembrávamos que existiam: 


1) Qualquer forma de habitação é mais digna que uma tenda. Acampar é basicamente viver num saco do pão com uma ventilação indigna dos chuveiros de Auschwitz, e que tem uma braguilha como porta de casa. Acampar voluntariamente é assumir que é não ter aprendido nada com os três porquinhos, e aceitar viver em condições mais precárias que o Ferrão da Rua Sésamo. E se nem todas as tendas são à prova de água ou do frio, garantidamente todas são à prova de conforto. Prova disso é aquela fatia de fiambre a que alguns masoquistas chamam de "colchão". O único colchão que existe no acto de acampar somos nós, num acto de caridade para com as pedrinhas do chão. Acampar é basicamente submeter-se de uma forma muito lenta de lapidação. Se alguma vez acampasse, a Princesa Ervilha saía de lá mais negra que um filho da Madonna. Depois de uma semana acampar as nossas costas ficam num estado digno do papel principal da "Paixão de Cristo", e tão ásperas que podem ser usadas como lixa em pequenos trabalhos de construção civil. 


2) Fazer as necessidades sentado é talvez a conquista mais importante da Humanidade, a seguir à ida do cão à Lua, à invenção da uva sem grainhas, e à descoberta que cortar as unhas muito rente aumenta consideravelmente o risco de comichão na ponta do nariz. Quando se volta de um Festival, a ida à casa de banho deixa de ser um incómodo, para voltar a ser o ponto alto do nosso dia. O melhor presente que podemos dar às nossas nádegas, se formos esse género de pessoa, é ser uma espécie de Henrique Mendes e promover um encontro com esse velho amigo que é o tampo lá de casa. A nádega é talvez a parte mais sensível do corpo humano. A prova disso é que um ser humano é capaz de suportar dores terríveis, todo o tipo de tortura física e psicológica, mas nunca o incómodo de sentir a etiqueta das cuecas a roçar-se no rabo. 


3) Existe uma coisa chamada higiene pessoal, e não se chama "pessoal" porque é feita à frente de todo o pessoal. É natural que nas primeiras vezes que for à casa de banho depois de regressar de um festival se sinta um pouco sozinho, mas calma. Ainda é cedo para contactar um psicólogo ou um bruxo senegalês, há-de acabar por voltar a habituar-se. Num período de transição, pode-se eventualmente convidar um amigo para apoio (mas é provável que não permaneça amigo durante muito mais tempo). E entretanto, aos poucos, o rolo de papel higiénico deixa de ser aquele acessório que segue connosco para todo o lado, como a cápsula de cianeto para um nazi, ou uma pele humana, no caso da Lili Caneças. 

4) Existem outros grupos alimentares que não os enlatados. O atum está para os Festivais de Verão como a sardinha está para os Santos Populares, o bacalhau para o Natal, e as criancinhas para o pequeno-almoço dos comunistas. Ao regressarmos de um festival, lembramo-nos que existem outras formas de preparação da comida para além de puxar a anilha e deixar escorrer o líquido. Recordamo-nos ainda que existem utensílios próprios para abrir as garrafas. Durante um festival toda a gente se transforma num MacGyver da cervejas: desde um tampão, passando por uma mortalha ou um bebé, qualquer objecto é um bom para saca-rolhas. Outras epifanias incluem a descoberta de que "ganza" não é, cientificamente falando, uma camada da atmosfera, e de que existe um líquido que ocupa 70% do planeta, e às vezes cai do céu, e não se chama cerveja. Se o Antigo Testamento tivesse sido escrito durante um festival de verão, o Dilúvio tinha sido de cerveja, e o Noé o primeiro a atirar-se borda fora. 

5) Aquilo a que os civis chamam "uma noite de sono". Os especialistas recomendam que o ser humano durma, e, espante-se, por períodos de algumas horas. Dormir durante um festival é como o Pai Natal, planeamento florestal em Portugal ou uma feijoada na Etiópia: são coisas que simplesmente não existem. A única forma de uma pessoa conseguir fechar os olhos e descansar, só mesmo se for declarada morta. Se chegou a este estado, está física e psicologicamente preparado para ser o figurante mais credível de uma matilha de zombies do "Walking Dead". 

6) Nem todos os cães do mundo têm pessoas de rastas do outro lado da trela, armadas com jambés e com mais furos na cara que um queijo suíço com acne. Admite-se que as rastas sejam uma solução capilar interessante, sobretudo para quem precise de esfregão para a loiça (nesse caso, recomenda-se uma rasta verde para o esfregão, e outra amarela para servir de esponja; assim não só se lava a loiça como também o cabelo). Há, no entanto, perigos associados às rastas. Por exemplo, pessoas com rastas que sejam muito altas não podem ficar muito tempo paradas no mesmo sítio, sob o risco de se tornarem um T0 para cegonhas. Contudo, não deixa de ser irónico que, apesar de boa parte das pessoas que usa rastas ser vegetariana, a sua cabeça lhes dê a camuflagem perfeita num fumeiro.

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