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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Os computadores são de Vénus e as pen de Marte

A tecnologia está a mudar o nosso dia-a-dia, inclusivamente os nossos relacionamentos amorosos. Mas acredito que o contrário também possa ser verdade, há muito de humano na forma como a tecnologia se relaciona. 

Eu só posso imaginar que para um computador ser penetrado por uma pen USB não deva ser uma experiência agradável. Pomos a pen e o computador começa literalmente a contar o tempo que falta até terminar a operação: “Faltam 3 minutos e 52 segundos”. 

Outras vezes, o computador precisa saber antes se a pen tem vírus. E é muito útil, porque se tiver vírus, muitos dos computadores fazem logo a limpeza. É como ir para a cama com uma enfermeira que tem já uma injecção de penicilina preparada. 

No mundo electrónico não há lugar a preliminares. Não há uma carícia, um miminho, um afecto, enfiamos logo a pen sem avisar. E claro, a pen nunca entra à primeira: primeiro tentamos enfiá-la no buraco errado, e depois quando finalmente acertamos no buraco, metemo-la ao contrário. Os computadores têm critérios, são selectivos e gostam de verificar por onde é que a pen andou, e estão sempre prontas a corrigi-la. O facto de os computadores terem as entradas permite-lhes ser picuinhas na hora de escolher as pen, e não aceitam qualquer uma. Não deve haver coisa mais humilhante para uma pen que entrar num computador e o computador não dar por nada. A pen entra toda direitinha e confiante, e depois o computador não a reconhece. Volta a tentar e nada. “Dispositivo não reconhecido, tente novamente”. Mas justifica-se que o computador seja assim, pois sabe que as pen não são esquisitas, são capazes de entrar em qualquer coisa; de modelos mais velhos aos computadores mais recentes, o importante para a pen é que tenham buraco. 

As pen e os computadores têm ritmos muito diferentes. Uma pen pode retirada sem aviso prévio, mas o computador não fica contente. Quando a pen se despacha demasiado rápido o computador fica tão frustrado que faz um som desagradável e protesta: “o seu dispositivo foi removido sem autorização”. Como qualquer um, o computador gosta que esperem por si, até que ele finalmente se sinta satisfeito, e possa autorizar a remoção da pen: “O dispositivo pode agora ser removido”. E esse é o final perfeito, estão ambos saciados e podem seguir o seu caminho. 

Há também aqueles que nunca mais foram os mesmos depois de andarem metidos com o computador ou pen errados. Para esses, tal como as pessoas, o melhor é mesmo formatar e começar de novo.

domingo, 14 de outubro de 2018

Jogos Paralímpicos para deficientes da fala

De todas as deficiências, a deficiência da fala é sem dúvida a mais discriminada. 
Ao contrário dos meninos bonitos das cadeira de rodas, que vivem à grande e só conhecem a boa vida dos lugares reservados no estacionamento, rampas de acesso, casas de banho e de uns Jogos Olímpicos só para eles, nós, os deficientes da fala, não temos direito a nada. Para parar com esta injustiça, proponho a inclusão dos Deficientes da Fala nos Jogos Paralímpicos. 

Tal como as actuais modalidades paralímpicas, tratar-se-ia de um conjunto de provas especialmente concebidas tendo em conta as limitações do atleta, sendo verdadeiros incentivos à superação humana. Ou seja, basicamente é pôr-nos a dizer palavras complicadas. 

Assim, as pessoas que trocam os erres pelos guês podem participar nas provas de barreiras, tentando superar difíceis obstáculos como são dizer “prerrogativa” ou “corroborar”. Os sopinhas de massa são perfeitos para as modalidades do lançamento do perdigoto e tiro ao alvo. No entanto, dada a quantidade de gafanhotos que lançam, é altamente desaconselhado que sejam sopinhas de massa a transportar a tocha olímpica. Para os gagos, a prova rainha: a Maratona. Tal como para a maioria das pessoas que corre a maratona, para um gago chegar ao fim da palavra é já uma vitória. Um gago que consiga acabar a palavra “Oftalmotorrinolaringologista” ou “Inconstitucionalissimamente” tem tanto valor e merece tanta admiração como um queniano que vença a corrida de São Silvestre. Além de que fazem tempos semelhantes. 

Finalmente, o Pentatlo, uma prova especialmente pensada para todos aqueles que são fanhosos, sopinhas de massa, não dizem os éles, trocam os erres pelos guês e ainda gaguejam. Tal como o Pentatlo Moderno, este pentatlo tem 5 provas, que consistem em ter o deficiente da fala a tentar dizer as cinco modalidades do Pentatlo Moderno. É uma modalidade duríssima em resistência e perícia, e que muito provavelmente vai ligar os Jogos de Verão aos Jogos de Inverno, pois ter “Natação”, “Hipismo”, “Ciclismo”, “Tiro” e “Corrida” ditas por um tipo que é fanhoso, gago, cicioso, que troque os erres pelos guês e não diga os éles, é coisa para começar no Verão e terminar depois do Natal.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Hashtags

A Internet está a mudar a maneira como comunicamos. Hoje em dia qualquer mensagem ou publicação tem de ter hashtag. Eu decidi que quando morrer o meu obituário também vai ter hashtags
Como não sou católico, em vez da cruz preta, o meu obituário vai ter outro símbolo; um símbolo verdadeiramente universal, que apela a todas as raças, credos e religiões: um Smiley triste. Depois, em baixo, estará: 
FALECEU: Jorge André Catarino 
#morte 
#eterna saudade de sua mulher e filhos 
#2soon 
@Cemitério dos Prazeres

Finalmente posso ser ainda mais específico quanto à causa da morte: 
#ataquecardíaco
#Citröen, se morrer atropelado; 
#Lisbonlovers, se morrer atropelado por um Tuk-Tuk; 
Ou então #metoo, se morrer atropelado por uma feminista.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Confissões de um portador de caspa

Se tivesse que me definir enquanto pessoa diria que, essencialmente, sou anti-caspa. Tenho caspa desde que me conheço. Apenas posso imaginar o quão feliz e sem caspa eu terei sido antes de me ter conhecido. Tenho tanta caspa que às vezes sinto que, em vez de couro cabeludo, tenho massa folhada na cabeça. O que é chato para alguém não gosta de salgados. 

Todos os dias o meu escalpe lança para a atmosfera milhares de flocos de caspa, alguns tão grandes que mais parecem bases para piza, e outros tão pequenos que mal dariam para albergar a população do Luxemburgo. No entanto, todos os relatos de avistamentos de OVNIs junto do meu cabelo provaram-se mais tarde serem falsos. A explicação oficial é de que nunca se encontrou indícios de vida inteligente na minha cabeça. 

No entanto, não seria de espantar se fossem mesmo mesmo OVNIs. Quando uso roupa escura é extremamente fácil confundir as minhas costas com a via Láctea numa noite de céu limpo, e extremamente difícil (mas não impossível) confundi-las com um mapa de Linda-a-Velha. Que é um sítio, como se sabe, que os OVNIs não costumam frequentar. 

O nome clínico da caspa é dermatite seborreica, que além de soar a um palavrão em romeno, só pode ser mal intencionado. Dermatite seborreica é um nome com o charme e sofisticação comparáveis ao som que se faz quando se tem comichão no céu da boca. São duas palavras que ficam melhor quando são escritas por disléxicos e que nos fazem lembrar que o síndrome de Tourette também afecta a classe médica. 

As doenças deviam ter nomes mais agradáveis. Se os sintomas já chegam para desanimar uma pessoa, então quando se descobre o nome da doença é muito fácil pensar-se em suicídio (não no nosso, mas no de outra pessoa). Quando descobri que a minha doença se chamava dermatite seborreica, tentei subornar um hemofílico a fim de trocarmos de diagnóstico. Infelizmente, o hemofílico enganou-me e acabei com uma infecção urinária. Isto para dizer que quem inventa os nomes das doenças devia pensar um bocadinho nas pessoas que delas padecem. Isso e ser proibido de se aproximar da Conservatória do Registo Civil. Caso contrário, ainda acabamos com crianças chamadas Sífilis, Bruna, Hepatite, ou Esmegma. E com a certeza que dali vai sair um ser humano perturbado, que provavelmente não faz a reciclagem, e que quando crescer vai mudar o nome para Infecção Urinária (que ainda assim dói menos que Jéssica). 

Voltando à minha caspa. Embora reconheça a sua diversidade de formas, apresenta no entanto grandes falhas ao nível de interesse estético. Não produz nada que se aproxime de um quadro do Picasso. O que é pena, porque desde criança que sou extremamente sensível à arte abstracta (por exemplo, Miró causa-me urticária). 

Também é inútil procurar consolo na religião, porque a caspa é uma doença esquecida por Deus. Cristo foi muito solícito quando se tratava de curar cegos e leprosos, mas não mexeu uma palha pelos que tinham caspa. O que suspeitar não só que cegos e leprosos são meninos-queridos do Senhor, como também que Cristo - o filho de Deus, recordo - não percebia nada de dermatologia, o que é pouco prestigiante para a Igreja, que é uma instituição idónea e com elevadíssimos padrões ao nível dos cuidados com a pele. A caspa carece ainda de santo protector. O candidato mais próximo seria São Bartolomeu, que foi um sujeito que foi esfolado vivo, e acabou por largar mais mais pele que a Lili Caneças em operações plásticas. Lembre-se que, entre outras coisas, este indivíduo é santo padroeiro dos fazedores de cintos. O que basicamente é ser a favor da violência doméstica. 

Todas as doenças têm o respectivo dia internacional, mas não a caspa. Caso existisse Dia Mundial da Luta contra a Caspa, acredito que, em vez de porem um laço ao peito, as pessoas iriam mostrar o seu apoio com um laço nos ombros. E passavam o dia inteiro a sacudi-lo. 

40% da população Mundial tem caspa. Isto significa que somos mais de 3 biliões de pessoas a sofrer do mesmo. Isto é mais gente do que a população da China e da Índia se juntassem ao sindicato dos trabalhadores do Metro de Lisboa. 3 biliões são, ainda assim, insuficientes para alarmar para a comunidade científica, entretida com vírus, epidemias e outras calamidades que não envolvem comichão no escalpe. Prioridades no mínimo questionáveis. E se é verdade que há crianças a morrer de fome em África, o que é muito triste, sem dúvida, também nunca vi nenhuma a sacudir caspa dos ombros. 

Finalmente, quando se fala de caspa é obrigatório falar-se de champô. Sou um grande consumidor de champôs para a caspa (nunca se for conduzir depois). Nos meus anos de experiência posso afirmar que os champôs anti-caspa estão para a caspa como uma uma bota está para uma salada de frutas: não está ali a fazer nada. Os anúncios de champôs mostram o couro cabeludo como uma espécie de pinhal de cabelos em péssimo estado, mais finos que um etíope guloso, e mais escamados que uma cebola com um escaldão. A acção do champô ocorre sob a forma de um tsunami que opera uma limpeza digna de genocídio. Depois os fios de cabelo surgem agora livres de caspa, além de gordos e saudáveis como lombrigas. 

Infelizmente, comigo isso não acontece. Caso tivesse piolhos, a minha cabeça seria uma habitação social em condições degradantes (a menos que os piolhos em causa sejam apreciadores de soalho fluante, nesse caso ignore a frase anterior). Os anúncios de champôs afirmam 99,9 % de eficácia contra a caspa, o que só pode ser interpretado como um esforço pouco sério dos laboratórios de champô, incapazes de dar o 0,1% que falta. Aceitar comprar um champô anti-caspa com 99,9% de eficácia faz tanto sentido como ir a um restaurante que anuncie ter comida 99,9% livre fezes. Aquele 0,1% que falta provavelmente vai fazer-me pensar duas vezes antes de encomendar esparregado.



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Princesa Diana

Hoje faz 20 anos que morreu a Princesa Diana. 
Toda a gente se lembra onde estava durante o 25 de Abril, ou na queda do muro de Berlim, ou quando Santana Lopes anunciou Paulo Portas como Ministro dos Assuntos do Mar. Por exemplo, eu lembro-me o perfeitamente do dia da morte de Diana, e pelo sim pelo não, vendi o Fiat Uno branco. Na altura enviei os meus pêsames à família real, mas não sei o que fizeram com eles, pois até hoje ainda não mos devolveram. 

No funeral da Princesa Diana, o Elton John fez uma cover dele próprio e cantou a música "Candle in the wind", o que não foi mau, mas podia muito bem ter cantado qualquer uma dos Crash Test Dummies. Elton John cantou no funeral de Diana semanas depois de terem estado juntos ao funeral de Gianni Versace. O ícone do mundo da moda foi morto pelo seu amante 20 anos mais novo. Uma espécie de Carlos Castro mas com abertura fácil. Na altura da sua morte, Diana era a mulher mais fotografada do Mundo. A Princesa Diana era tão famosa que em Angola houve quem desse a perna esquerda para a poder conhecer. 

Aquando da sua separação do Príncipe Carlos, Diana afirmou que havia três pessoas no casamento, referindo-se a Camila Parker-Bowles, uma mulher que tanto consegue ficar bem de vestido como de burka. Na mesma entrevista, a Princesa Diana admitiu que também foi infiel ao Príncipe Carlos. Aliás, no funeral, o Príncipe Carlos passou o tempo todo a tentar evitar um grupo de forcados amadores do Montijo. 

Desde 1997 muita coisa mudou. A capital do Cazaquistão mudou de Almaty para Astana, mas infelizmente o nome do país ficou igual. O Rei Juan Carlos abdicou do trono do trono de Espanha para se poder dedicar à sua grande paixão, o adultério. Foi sucedido pelo filho, Rei Filipe VI de Espanha (V de Portugal). 

Em 1997 o líder norte-coreano, Kim Jong-un tinha 14 anos e ainda não tinha aquele problema no cabelo. Soube-se esta semana que o querido líder - pois também vai a casa remodelar a saúde das pessoas - foi pai. Consta que já vai no terceiro filho, um por cada Guerra Mundial. O parto foi um momento especial e íntimo presenciado por mil e quatrocentos dos oficiais norte-coreanos mais próximos do casal. A criança nasceu com 3,300 kg, perfeitamente dentro da média para um norte-coreano adulto. A mãe da criança, e primeira dama da Coreia do Norte, chama-se Ri Sol-ju. Infelizmente Ri Sol é um nome pouco apreciado na Coreia do Norte, que é um país onde há pouco camarão. 

No futebol, em 1997 o Ruben Neves ainda não era nascido e o Renato Sanches ainda não sabia dizer banco em alemão. A selecção portuguesa contava com estrelas como Luís Figo, Rui Costa ou Carlos Secretário, que era quem escrevia a actas. O jogador mais caro do Mundo chamava-se Denilson, e o mais barato chamava-se Quim Berto e era lateral-direito do Sporting. O lateral-direito do Benfica chamava-se José Sousa, e ambos tinham um segundo emprego na lota. Ricardo Sá Pinto, em excelente momento de forma, enfiava duas batatas no seleccionador nacional Artur Jorge, ainda assim insuficientes para garantir o apuramento para o Mundial 1998. E finalmente, em 1997 Eusébio ainda era vivo, mas já estava conservado em álcool. 

Regresso às aulas está aí, e parece-me o pretexto ideal para uma bonita homenagem à Princesa Diana na forma de uma linha de material escolar. Por exemplo, com um estojo em forma de caixão ou um pisa papéis em forma de Mercedes.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Al Andaluz (ou Península Ibérica para aqueles nascidos depois de 1492)

Foi uma semana repleta de acontecimentos improváveis. Houve eleições em Angola, um eclipse no Sol e um Sporting na Liga dos Campeões. Cheira-me que há mão do General Nhaga nisto. 

O mentor do atentado de Barcelona fez-se explodir acidentalmente em casa na véspera do atentado. Para já está afastada a tese de "Querido Mudei a Casa". Fazer-se explodir antes do grande atentado, deve ser o pior pesadelo de um bombista. Isso e não caber no cinto de explosivos por ter uns quilinhos a mais. No entanto, para manter a linha, não poder comer porco é já uma grande ajuda. De todo o modo, Abdelbaki Es Satty prova-nos que, quando se é bombista, é possível perder peso, rapidamente e sem sair de casa. 

A grande questão é: será que ele continua a poder receber as 72 virgens ou tem apenas direito a prémio de participação? (por exemplo, um cheque brinde em Tancos). 

Julgo que o terrorismo começa logo pelo nome. Nomes como Abouyaaqoub ou Abu Bakr são um verdadeiro atropelo à língua. Fico logo com vontade de rezar em hashtag. Eu nunca me juntaria ao Estado Islâmico, mas por razões estéticas. Por muito que admire o visual Adriano Correia de Oliveira em férias, nunca me iria habituar a usar a barba em forma de babete. 

Uma das pretensões do Estado Islâmico é recuperar o Al Andaluz, ou Península Ibérica para os mais novos, sobretudo aqueles nascidos depois de 1492. Confesso que Andaluz é um nome que fica no ouvido, e até parece que estamos a dar ordens a uma lâmpada, mas alguém devia dizer aos terroristas que viver Lisboa está impossível para quem subsiste com um salário de jihadista. Acho fofinho tratarem-nos pelo nome que ninguém nos chama desde o século oitavo. É como quando a nossa mãe nos trata pela alcunha que tínhamos em pequenos, ou quando se diz Lourenço Marques em vez de Maputo, Checoslováquia em vez de República Checa, ou Serviço Nacional de Saúde em vez de "Tire a senha que nós chamamos quando morrer". Bem sei que não se negoceia com terroristas, mas não vinha mal ao mundo se lhes déssemos Albufeira ou o bairro do Zambujal, ou lhes arrendássemos as nossas florestas durante o Verão. Pior não faziam. 

Reivindicar a Península Ibérica, chama-se a isto sonhar baixo. É ter fantasias com a Maria Vieira, quando se pode imaginar na cama com um tractor. Agradecemos o interesse, mas já temos isto apalavrado a um casal de brasileiros, e não aceitamos lições em como destruir o nosso património cultural. Fazêmo-lo muito bem sozinhos. E também já temos a nossa bandeira feia, obrigado.

Entretanto, foi encontrado um pacote suspeito nas imediações da Casa Branca. Vejo notícias há muitos anos e pelo que percebo - o Nuno Rogeiro que me corrija se estiver enganado - há todo um sector do terrorismo especializado em fazer pacotes e embrulhos suspeitos. Se o terrorismo não der certo, os jihadistas podem sempre ir trabalhar para o shopping. 

Mudando para assuntos sérios, o Fábio Coentrão disse que andam a pôr em causa o seu bom nome. O que ninguém lhe disse é que Coentrão não é um bom nome em lugar algum do mundo. E por falar nomes de desenhos animados, o Yannick Djaló está de regresso a Portugal. A conservatória do registo civil já foi colocado em alerta laranja. 

Ainda em matéria de terror, a Sinnéad O'Connor, que está mais pesada que a consciência da Constança Urbano de Sousa, está indecisa entre o suicídio e ir para a cama com o Russel Brand. O Russel Brand é que não tem dúvidas e já comprou a corda para se pendurar. É o que qualquer homem no seu perfeito juízo faria. Mas isso a Sinnéad O'Connor já deve estar careca de saber.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O stress pós-traumático dos Festivais de Verão

Voltar de um festival de Verão é como regressar da guerra. Acordamos suados de noite, com flashbacks dos concertos, e ouvir música despoleta em nós o gesto reflexo de colocar a mão ao alto e acender um isqueiro. O mundo parece igual, nós é que voltamos diferentes. A pulseira é a prova da bravura em combate, e mantém-se no pulso até começar a ser absorvida pela nossa pele e se tornar uma tatuagem: pode dizer "Vilar Mouros" ou "Festival do Panda", mas bem que podia dizer "Guiné 1969". Tal como na guerra, os festivais de Verão levam milhares de jovens a abandonar as suas casas, rumo a alguns dos locais mais remotos do território português (ou seja, tudo o que fique a 1 hora de distância de Lisboa ou do Porto). Em termos musicais, um festival de verão é mais desconfortável que aquela cena da "Laranja Mecânica" e faz bem mais vítimas que um concerto da Ariana Grande. 

O regresso à rotina depois de um festival pode ser difícil, e há aspectos da vida quotidiana de que já não nos lembrávamos que existiam: 


1) Qualquer forma de habitação é mais digna que uma tenda. Acampar é basicamente viver num saco do pão com uma ventilação indigna dos chuveiros de Auschwitz, e que tem uma braguilha como porta de casa. Acampar voluntariamente é assumir que é não ter aprendido nada com os três porquinhos, e aceitar viver em condições mais precárias que o Ferrão da Rua Sésamo. E se nem todas as tendas são à prova de água ou do frio, garantidamente todas são à prova de conforto. Prova disso é aquela fatia de fiambre a que alguns masoquistas chamam de "colchão". O único colchão que existe no acto de acampar somos nós, num acto de caridade para com as pedrinhas do chão. Acampar é basicamente submeter-se de uma forma muito lenta de lapidação. Se alguma vez acampasse, a Princesa Ervilha saía de lá mais negra que um filho da Madonna. Depois de uma semana acampar as nossas costas ficam num estado digno do papel principal da "Paixão de Cristo", e tão ásperas que podem ser usadas como lixa em pequenos trabalhos de construção civil. 


2) Fazer as necessidades sentado é talvez a conquista mais importante da Humanidade, a seguir à ida do cão à Lua, à invenção da uva sem grainhas, e à descoberta que cortar as unhas muito rente aumenta consideravelmente o risco de comichão na ponta do nariz. Quando se volta de um Festival, a ida à casa de banho deixa de ser um incómodo, para voltar a ser o ponto alto do nosso dia. O melhor presente que podemos dar às nossas nádegas, se formos esse género de pessoa, é ser uma espécie de Henrique Mendes e promover um encontro com esse velho amigo que é o tampo lá de casa. A nádega é talvez a parte mais sensível do corpo humano. A prova disso é que um ser humano é capaz de suportar dores terríveis, todo o tipo de tortura física e psicológica, mas nunca o incómodo de sentir a etiqueta das cuecas a roçar-se no rabo. 


3) Existe uma coisa chamada higiene pessoal, e não se chama "pessoal" porque é feita à frente de todo o pessoal. É natural que nas primeiras vezes que for à casa de banho depois de regressar de um festival se sinta um pouco sozinho, mas calma. Ainda é cedo para contactar um psicólogo ou um bruxo senegalês, há-de acabar por voltar a habituar-se. Num período de transição, pode-se eventualmente convidar um amigo para apoio (mas é provável que não permaneça amigo durante muito mais tempo). E entretanto, aos poucos, o rolo de papel higiénico deixa de ser aquele acessório que segue connosco para todo o lado, como a cápsula de cianeto para um nazi, ou uma pele humana, no caso da Lili Caneças. 

4) Existem outros grupos alimentares que não os enlatados. O atum está para os Festivais de Verão como a sardinha está para os Santos Populares, o bacalhau para o Natal, e as criancinhas para o pequeno-almoço dos comunistas. Ao regressarmos de um festival, lembramo-nos que existem outras formas de preparação da comida para além de puxar a anilha e deixar escorrer o líquido. Recordamo-nos ainda que existem utensílios próprios para abrir as garrafas. Durante um festival toda a gente se transforma num MacGyver da cervejas: desde um tampão, passando por uma mortalha ou um bebé, qualquer objecto é um bom para saca-rolhas. Outras epifanias incluem a descoberta de que "ganza" não é, cientificamente falando, uma camada da atmosfera, e de que existe um líquido que ocupa 70% do planeta, e às vezes cai do céu, e não se chama cerveja. Se o Antigo Testamento tivesse sido escrito durante um festival de verão, o Dilúvio tinha sido de cerveja, e o Noé o primeiro a atirar-se borda fora. 

5) Aquilo a que os civis chamam "uma noite de sono". Os especialistas recomendam que o ser humano durma, e, espante-se, por períodos de algumas horas. Dormir durante um festival é como o Pai Natal, planeamento florestal em Portugal ou uma feijoada na Etiópia: são coisas que simplesmente não existem. A única forma de uma pessoa conseguir fechar os olhos e descansar, só mesmo se for declarada morta. Se chegou a este estado, está física e psicologicamente preparado para ser o figurante mais credível de uma matilha de zombies do "Walking Dead". 

6) Nem todos os cães do mundo têm pessoas de rastas do outro lado da trela, armadas com jambés e com mais furos na cara que um queijo suíço com acne. Admite-se que as rastas sejam uma solução capilar interessante, sobretudo para quem precise de esfregão para a loiça (nesse caso, recomenda-se uma rasta verde para o esfregão, e outra amarela para servir de esponja; assim não só se lava a loiça como também o cabelo). Há, no entanto, perigos associados às rastas. Por exemplo, pessoas com rastas que sejam muito altas não podem ficar muito tempo paradas no mesmo sítio, sob o risco de se tornarem um T0 para cegonhas. Contudo, não deixa de ser irónico que, apesar de boa parte das pessoas que usa rastas ser vegetariana, a sua cabeça lhes dê a camuflagem perfeita num fumeiro.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

As transferências de futebol são como casamentos (2ª parte)

As semelhanças entre amor e futebol vão muito para além das palmadinhas no rabo. 

Tanto no amor e como na bola usam-se muitas alcunhas. Ter uma alcunha é essencial para um futebolista, muito mais que uma técnica apurada ou um penteado digno do Prémio Pritzker. Uma alcunha indica-nos o que podemos esperar do jogador. Se for "El Toro", estaremos perante um poço de força. "El Puma" provavelmente será um avançado rápido e oportunista. Já se for "El Abutre" além de oportunista, também é careca. Mas se o suposto é que as alcunhas dos futebolistas sejam ameaçadoras, mais valia que escolhessem coisas que podem realmente matar. Um jogador com a alcunha "El negligência médica" seria bem mais temível que um "El Crocodilo" (à excepção feita, talvez, a uma equipa mista de zebras e gnus). Os futebolistas têm à sua disposição um manancial inexplorado de alcunhas entre as fatalidades mais populares. Desde "El tabaco" e "El diabetes", passando por "El praia não vigiada" (especialmente temível na pré-época de verão), a "El "doença prolongada", ou "El sinistralidade rodoviária". Existe ainda "El trombose", quando se trata de um jogador que paralisa metade dos adversários, ou ainda "El violência policial", especialmente eficaz contra uma equipa maioritariamente negra. 

 Já as alcunhas amorosas estão muito ligadas à comida, sobretudo doces e bolos. Essencialmente alimentos tão calóricos que deixariam uma anorética à beira de um ataque de vómitos. No entanto, tratar o conjuge por "meu docinho" não reflecte a natureza real de uma relação amorosa. Seria bem mais honesto escolher para alcunha comidas que reflectissem o estado da relação: "minha roupa velha", para engates arranjados logo a seguir ao Natal, "minha fast food", para a fraqueza em noites de bebedeira, em que precisamos comer algo rapidamente, mesmo que seja carne de má qualidade; "mina latinha de  atum", quando estamos com alguém simplesmente porque não há mais nada que se coma, ou finalmente "meu arrozinho de cabidela", para quando a namorada está com o período. 

Um clube de futebol que vai ao mercado à procura de reforços é exactamente como alguém que sai para o engate. Imagine-se um clube que anda à procura de um lateral-esquerdo, jovem, simpático, que seja um misto de atributos físicos e técnicos. Enfim, alguém com tudo no sítio. Na abordagem ao mercado convém alguma dose de realismo na visão de nós próprios. Não é bom acharmos logo que somos o Real Madrid, quando na verdade não passamos de um Real Massamá. A bebida é um factor que turva a visão que temos de nós próprios. Normalmente vamos subindo de escalão à medida que bebemos. Podemos começar a noite a sentir que somos o Paços de Ferreira, isto é, com um nível bastante aceitável, e acabar a pensar que somos a selecção brasileira do Mundial de 82. Também há o inverso, quando a bebida dá para a depressão. Aí vamos descendo sucessivamente de divisão até acabarmos a noite nas Distritais. No engate, podemos ser o Sporting, e apostar sobretudo nas camadas mais jovens, ou ser como uma equipa da MLS, e preferir a veterania. Finalmente, não convém ser um Shangai Shenhua, que ataca tudo o que mexe e acaba por gastar mais do que deve.

Tanto no futebol como no engate há diferentes tipos de alvos:
  1. Os que estão ao nosso alcance, que podem vir com um ou outro pequeno defeito, mas bastante aceitáveis no cômputo geral; 
  2. Namoros antigos, que se encontram regularmente a cada saída, com quem há troca de olhares, mas cuja abordagem vai sendo sucessivamente adiada (é melhor deixar que a paixão permaneça platónica, pois trata-se daqueles casos de jogadores que jogam muito bem contra a nossa equipa, mas que deixam de prestar assim que passam para o nosso lado); 
  3. Aqueles que são completamente de evitar. Há que ter padrões. Quem se mostra muito disponível provavelmente já foi mais manuseado que o último pão de forma da prateleira do supermercado, já não está lá muito fresco e tem manchas esquisitas. 
  4. Alvos irrealistas, que a única maneira de ir lá farejar é pelo Instagram.

Em todo o caso, é preciso estar preparado para a rejeição. "Há mais laterais-esquerdos na terra" é a atitude correcta, mesmo que aquele flanco esquerdo corra o risco de acumular mais pó que as narinas do Maradona.


(continua)
(parte I)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tancos very much

O caso do roubo de material militar do paiol Tancos ocupou as notícias na última semana. Sem câmera, sem vedação, e sem vigilância durante horas. É como se o paiol de Tancos estivesse a ser vigiado pelo casal McCann. E se a vídeo-vigilância avariada e a falta de pessoal efectivo já não fossem suficientes, os únicos cães de guarda que têm são de loiça. Resumindo, a base de Tancos estava mais desprotegida que uma queima das fitas com o Charlie Sheen.

Mas nem tudo é mau. Se por um lado desapareceu material de guerra, que põe em causa a segurança de todos, por outro lado, o paiol assaltado ganhou um espaço de arrumação bem maior. E a verdade é que granadas anti-tanque estão muito demodée. Pese a fraca segurança, o paiol de Tancos mantém uma pontuação muito positiva no Zoomato, recebendo pontos extra pela rapidez do serviço e facilidade de acessos. 

O assalto, porém, não implicou reforço da vigilância nas fronteiras. O exército acredita que, ao contrário de material de guerra, não é fácil roubar linhas imaginárias. O assalto a Tancos revelou sobretudo a falta de organização no exército. O que é pena. Se há coisa que o caso de corrupção no abastecimento das messes prova é que as forças armadas têm gente capaz de se organizar e trabalhar em conjunto. 

Entretanto, noutro caso envolvendo militares, a Polícia Judiciária deteve 12 oficiais por suspeitas de corrupção no abastecimento da messe do exército, na chamada "Operação Zeus". O que é pena. Perdeu-se uma excelente oportunidade de chamar a esta operação "Pesadelos na Cozinha". 

O presidente do Sporting casou-se. Como habitualmente, a imprensa anunciou que Bruno Carvalho tem novo um clube. O que é cruel, pois cria falsas esperanças aos sportinguistas. Para isso eles já têm a pré-época. Ainda no Sporting, Fábio Coentrão assinou por uma época. Trata-se de uma excelente jogada de antecipação do Sporting, que assina com um jogador que já tinha tudo acertado com o Fisco Espanhol. 

O Benfica terá celebrado com o bruxo Armando Nhaga um contrato de prestação de serviços. O acordo de 100 mil euros, incluía, entre outros métodos de bruxaria, o sacrifício de galinhas. Considerando que ainda há uns anos o Benfica pagou 8 milhões pelo guarda-redes Roberto, 100 mil euros não é um valor assim tão elevado a pagar por frangos. Por outro lado, há pouca gente capaz pagar tanto por comida. Assim, de cabeça, só me lembro das Forças Armadas. Outro método do bruxo guineense incluía embeber panos em bagaço. Por muito bom bruxo que seja, Armando Nhaga é péssimo a servir bebidas. Se no Apito Dourado se falava de fruta, agora no chamado "Apito Encarnado" fala-se de galinhas. Ou seja, nos casos de corrupção no futebol português há sempre produtos alimentares ao barulho. O que abre aos nossos dirigentes desportivos boas perspectivas de uma carreira nas Forças Armadas.

A Coreia do Norte lançou um míssil de longo alcance, capaz de atingir qualquer ponto do Planeta. O que motivou fortes censuras da comunidade internacional. O caso de Tancos é um excelente incentivo que Portugal dá à Coreia do Norte, Irão e Canelas F.C. para iniciarem os seus próprios processos de desarmamento. Não percebo o embargo à Coreia do Norte, sobretudo de músicos. Ao contrário do que os músicos dizem no final de qualquer concerto, independentemente do lugar, os norte-coreanos são, efectivamente, o melhor público do Mundo. O Kim Jong-un pode fazer qualquer coisa, que eles aplaudem tudo. Ele pode mandar um peido e eles aplaudem. O apoio do povo Norte-coreano ao seu líder é tão incrível que um dos meus sonhos é ver o King Jong-un a participar no "Preço Certo em Euros". 

Por cá, uma criança de ano e meio esteve desaparecida durante 15 horas na aldeia de Serzedelo. Iuri, de seu nome, foi encontrado a 1 km de casa. Tudo indica que iria a caminho do Registo Civil para mudar de nome. O bebé foi encontrado por uma vizinha que o delatou imediatamente às autoridades. Iuri irá agora cumprir pena agravada, obrigado não só a manter o nome Iuri, o qual terá ainda de acumular outro nome que poderá ir de Ivan a Cátio.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O ar é de todos

Há países cujo nome parece ser de outra coisa qualquer que não um país. Se Arménia é claramente nome de mulher, já Mauritânia parece nome de uma cantora transexual. Trinidade & Tobago soa a empresa de advogados (provavelmente com licença para exercer em Trinidade e Tobago), e os Camarões fazem-nos procurar no mapa por um país chamado Delícias do Mar. Finalmente, se há um país chamado Butão, nada impede que também exista um país chamado Braguilha. Mas adiante.

Nos últimos tempos tem-se registado vários casos de drones que voam muito próximo de aviões. Em 2017 já houve mais de dez incidentes do género, sete dos quais durante o mês de Junho. Em resumo, neste ano já estiveram mais drones à volta de aviões que funcionários da Groundforce. Ainda esta semana houve registo de um incidente entre um drone e um avião da low-cost Ryanair. Este encontro imediato chocou os passageiros, sobretudo quando perceberam que o drone tinha muito melhores condições que a companhia em que viajavam. 

Um drone é uma espécie de helicóptero em versão piny-pon, e cujo nome vem do latim e quer dizer "o ar é de todos". Por lei, estão proibidos de voar perto de zonas de aeroportos. O que é manifestamente insuficiente. Além da proibição de sobrevoar aeroportos, os drones deviam também ser impedidos de sobrevoar azinheiras. Nunca se sabe quando se podem cruzar com Nossa Senhora.

Ainda em matéria religiosa, são cada vez mais as pessoas que não querem que os seus entes queridos vão para o céu, com medo que choquem com drones. O drone ameaça ainda intrometer-se no imaginário musical. Se a Amália estivesse viva certamente cantaria "Se um drone viesse, trazer-me o céu de Lisboa...". Entretanto, Miguel Araújo dos Azeitonas já confirmou que vai refazer a letra da música "Anda comigo ver os aviões" para incluir um verso com drones. Ficam algumas sugestões de coisas que rimam com drone: trombone, mirone, Ivone, e Paula Bobone.

A acrescentar aos sucessivos incidentes com drones, regista-se ainda a falta de entendimento das organizações envolvidas, como a NAV (Navegação Aérea de Portugal), a ANAC (Autoridade Nacional de Aviação Civil), a GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários), a APPLA (Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea), a SINCTA (Sindicato dos Controladores o Tráfego Aéreo) e APANT (Associação Portuguesa de Aeronaves não Tripuladas). O Governo já prometeu tomar medidas concretas, nomeadamente a criação de comissão especializada em sopas de letras. Outra medida falada passa pelo abate de drones. O que pode ajudar a dissuadir potenciais infractores, pois um drone ainda é caro, e ao contrário de um avião, o dinheiro não cai do céu.

Em 2014 foi gravado nos EUA o primeiro filme pornográfico filmado a partir de um drone. Trata-se da maior inovação na História da masturbação desde que deixou de fazer crescer pelos nas mãos. Basicamente, um porno filmado através de drone mistura pornografia com o ponto de vista da informação do estado do trânsito. Além de erótico é informativo: podemos assistir a uma escaldante cena sado-maso lésbica, ao mesmo tempo que sabemos como está a circulação na VCI junto ao nó de Francos. Se isto não é um passo à frente para a Humanidade, então sinceramente não sei o que o será.

A questão é que os drones ainda são uma novidade. Há-de chegar o dia em que um encontro com drone vai ser um acontecimento tão banal e quotidiano como uma greve da TAP. Agora, se em vez de um drone, fosse um anão a obrigar um avião a uma manobra perigosa, aí sim, era uma coisa que não se vê todos os dias.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

As transferências de futebol são como casamentos (1ª parte)

Dois historiadores de arte contemplam um quadro surrealista. Um vira-se para o outro e diz “pensei que fosse mais gordo”. Ao que o segundo responde, “Não, é Magritte”. 

Mas não percamos mais tempo. Quando um futebolista se casa, é habitual lermos na imprensa títulos como “Joaquim junta-se ao clube dos casados”, ou um lacónico “Betinho tem novo clube”. Mais tarde, descobrimos que o novo clube se chama afinal Futebol Clube da Fernanda ou Elisabete United, e não joga na Champions. 

Em muitos aspectos uma transferência é exactamente como um casamento. A forma como os jornais desportivos anunciam as transferências de jogadores podia muito bem ser aplicada a relacionamentos amorosos: “Arnaldo faz proposta por Armanda”, “Luisinho vai avançar por Carlota”, “Roberta já não escapa”, “Rute quer dar o salto, mas Ricardo Jorge dificulta saída”. 

O período de transferências coincide com a altura em que se celebram mais casamentos, o Verão. E para ambos existe um período de lua-de-mel. A lua-de-mel acaba quando o recém-casado descobre que casou com alguém cujo hálito matinal é comparável à atmosfera de um planeta inabitável, e que a única coisa que tem de fofinho são pilosidades em sítios inesperados. Normalmente quando isto acontece é já demasiado tarde para voltar atrás no empréstimo para compra de um T2 em Massamá. Não é, pois, a despropósito que se usa a expressão “contrair matrimónio”. Tal como quem contrai uma doença, também envolve sérios riscos para a saúde e que podem deixar sequelas para toda a vida. 

No caso do futebolista, a lua-de-mel termina quando o seu novo clube descobre que a que a única coisa que o jogador tem de craque é o som que o joelho dele faz quando corre. E assim, no amor e na bola, é num ápice que se passa de bestial a bosta. 

Hoje em dia tanto casamentos como contratos de futebol são tão pouco duradouros que em vez da expressão “dar o nó”, se devia dizer “prender com velcro”. Apesar de se comprometerem até que a morte os separe, os noivos sabem muito bem que vão sair abaixo da cláusula de rescisão. Seria mais realista que os casamentos fossem mais como os contratos de futebol, e em vez de serem para toda a vida, tivessem uma duração de 5 anos (ou de 1 ano com outro de opção, se algum dos noivos já acusar alguma veterania ou tiver um historial de lesões). E se uma transferência é comparável a um casamento, o que é afinal uma união de facto, se não um empréstimo com opção de compra? 

No amor e no futebol fazem-se juras de amor eterno, com mais tendência a serem quebradas que a anca de uma velha. Ao assinarem pelo novo clube, os futebolistas dão beijinho no emblema e afirmam que “sou deste clube desde pequenino” (o que só lança dúvidas sobre a seriedade de quem inventou osistema métrico). O “sou deste clube desde pequenino” é o equivalente futebolístico ao “amo-te desde o dia em que te vi”, e têm ambos um prazo de validade semelhante à pílula do dia seguinte: vale para as próximas 72 horas.


(continua)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O idiota de aldeia, uma profissão em vias de extinção

O idiota de aldeia está em vias de extinção. O gradual desaparecimento desta figura mítica do mundo rural é uma consequência muitas vezes ignorada do êxodo para as grandes cidades. A real ameaça ao idiota de aldeia acompanha a lenta dissolução de outros alicerces do Portugal profundo, como o casamento entre primos directos, o cão chamado Piloto e as pessoas chamadas Perpétua.

Há não muito tempo, não havia aldeia que não se orgulhasse do seu respectivo idiota, cujas competências eram tão diversas como o aconselhamento a girassóis com problemas de orientação, ou a recensão e controlo demográfico de caganitas. No delicado equilíbrio social da aldeia, em que cada um dos habitantes desempenha um papel específico no funcionamento do todo, e em directa dependência uns dos outros, o idiota distinguia-se como figura ímpar da sua comunidade. 

A deslocação da população rural para o contexto urbano teve consequências drásticas para a vida do idiota de aldeia. Além da ameaça ao frágil ecossistema de que faz parte, o idiota de aldeia viu ainda nascer o seu antagonista: o idiota de cidade. 

À medida que o idiota de aldeia começou a ser mais raro que um falante de mirandês a cavalo de um unicórnio, o idiota de cidade crescia que nem pêlos nas sobrancelhas de um velho e multiplicava-se que nem informáticos nos anos 90. O idiota passou, assim, de figura única no imaginário da aldeia (era improvável encontrar-se dois idiotas na mesma aldeia, uma vez que têm um forte sentido territorial), a apenas mais um na multidão de idiotas anónimos que compõem as nossas cidades. A proliferação do idiota comum vulgarizou o papel de idiota, agora ao alcance de qualquer palerma ou imbecil, manchando o bom nome de uma ocupação outrora orgulhosa e digna, e altamente selectiva. Daqui naturalmente se conclui que o idiota de cidade, domesticado e amolecido pelo conforto urbano, mais não é que um retrocesso na grande tradição dos idiotas de aldeia. 

Apesar das evidentes afinidades, existem importantes diferenças entre o idiota e o político. Além de que qualquer um pode ser político, na política qualquer cargo não serve mais que trampolim para um cargo superior. Ser idiota de aldeia porém, não só não é compatível com aparelhos de ginástica, não obedece a uma hierarquia de poder que permita ao idiota da aldeia ascender a idiota da junta, seguido de idiota municipal, e finalmente, de primeiro idiota a idiota da república, com autoridade sobre aqueles idiotas todos. Simplesmente porque ser idiota da aldeia é já alcançar o grau máximo de prestígio na especialidade. 

Ser idiota de aldeia é uma vocação ao alcance de eleitos, abençoados com aquela chispa divina que faz deflagrar a chama descontrolada da estupidez ou até mesmo do fogo, caso acumulem as funções de idiota com as de incendiário da aldeia. Diríamos que é mais fácil para os monges budistas acharem o novo Dalai Lama que para os aldeões acharem um novo idiota que lhes encha as medidas. Urge pois zelar pela preservação desta figura incontornável da ruralidade, para que os nossos filhos possam saber o que é o idiota de aldeia, e quem sabe, possam mesmo vir a sê-lo.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Portugueses pelo Mundo: Santo António

Santo António recebe-nos na sua modesta cela de Pádua. Há muito que a típica pestilência a cadáver molhado, tão característica da Idade Média, foi substituída pelo cheiro a peixe, resultado dos sermões do santo lisboeta. A cela de Santo António é despojada. Enquanto franciscano fez um voto de pobreza, reduzindo os seus bens ao essencial: um rosário, uma Bíblia, e uma lâmina e um penico para aparar a tonsura (conta-nos que teve ainda um amigo imaginário, mas que foi obrigado a devolvê-lo assim que os outros franciscanos descobriram). 

Desde pequeno que António sonha em tornar-se santo, preferencialmente através do martírio. “Enquanto as outras crianças da minha rua queriam ser moleiros ou vítimas da peste, eu brincava aos mártires”, afirma, recordando as brincadeiras de menino em que fingia que era lapidado, que tinha a cabeça empalada num pau ou era esfolado vivo. Após a formação em Lisboa e Coimbra, parte para Marrocos à procura do martírio com que sempre sonhou: “Infelizmente o nosso país não tem condições para quem quer ser mártir, pelo que a solução foi o estrangeiro. E quando soube que andavam a martirizar franciscanos em Marrocos, não pensei duas vezes”. Parte com a mala cheia de sonhos, uma vez que os franciscanos não podem possuir bens terrenos, e a esperança de uma morte violenta. Infelizmente, e já em Marrocos, adoece gravemente: “Tinha muitas dores de cabeça e custava-me a engolir, não me sentia em condições para sair da cama, muito menos para ser decapitado ou degolado. Não fui martirizado, mas ao menos fiquei com a minha saúde, que é o mais importante”, conclui. 

De regresso à Europa, Santo António fixa-se definitivamente em Pádua, onde começa a operar milagres, e a encontrar coisas perdidas. Torna-se orador afamado e figura influente na Igreja Católica, conseguindo ainda o prestigiado cargo de babysitter do Menino Jesus. “Ando com o Menino Jesus ao colo para todo o lado. Não é nenhum martírio, mas também não faz nada bem às costas, além de que é preciso uma paciência de santo para aturar o Menino”, admite. 

É em Pádua que Santo António tem uma ideia que lhe irá trazer a canonização com que sempre sonhou: “Reparei que os sermões, as conversões e castigos eram aplicados apenas às pessoas, nada estava a ser nada feito em relação aos peixes. Encontrei um nicho por explorar”. Santo António começa então a pregar aos peixes. “Nunca mais se esqueço da primeira vez que confessei um tamboril ou ensinei uma solha a rezar uma Avé Maria”, afirma emocionado. No entanto, e apesar da grande taxa de sucesso, Santo António confirma que encontra todos os dias peixes que ainda resistem à conversão. “Esses casos – afirma – recebem o mesmo tratamento que é dado aos hereges, e são queimados na fogueira.” Sardinhas, douradas, robalos, carapaus, bacalhau, chocos, polvo às quintas-feiras, peixes-espada e salmões, entre outros, são, segundo Santo António, os peixes mais complicados para converter. “É desolador vê-los a acabar na grelha como hereges”, afirma, enquanto tenta, novamente sem sucesso, converter um pimento. 

Santo António é o exemplo derradeiro de um português que alcança o sucesso no estrangeiro. Agora que cumpriu o seu sonho de menino de se tornar um santo mundialmente reconhecido, garante que os seus planos passam por continuar a pregar aos peixes e expandir os sermões e conversões a outros animais, como o camarão-tigre, o porco preto e a raça mirandesa. “Se não se converterem, lá terão de ir para a grelha”, lamenta.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Nós, o dinheiro e a raspadinha

A relação dos portugueses com o dinheiro é em tudo semelhante a uma história de amor. Evidentemente que se trata de um amor não correspondido: o dinheiro não quer ter nada a ver com portugueses, e é, aliás, conhecida a sua predilecção por outras nacionalidades.

Uma das razões que impede que a afeição dos portugueses pelo dinheiro se desenvolva para além do amor platónico, e eventualmente seja consumada em amor carnal, é a nossa falta de paciência para engates muito demorados. O tenho-mais-que-fazer é um dos instintos mais poderosos da psique lusitana. Podemos mesmo afirmar que o português não faz, o português despacha. No dinheiro, o que o português procura verdadeiramente é passar do amor platónico ao cigarro pós-coital.

No entanto, o que nos falta em paciência, compensamos largamente em fé. Existe um sentimento de tão profunda e exclusivamente português que ocupa com a saudade e a fobia a correntes de ar o lugar cimeiro do repositório emocional lusitano: a fezada. O leitor, ávido por mais esclarecimentos,
perguntará o que é a fezada. Nós explicamos, seu lambão.

Em matérias do impossível, a fezada funciona como uma espécie de polícia de intervenção num bairro problemático: vai onde o milagre não se atreve a ir. Ter uma fezada é ser vidente em causa própria e acreditar em algo que nem mesmo Deus acredita. E no que toca a dinheiro, os portugueses lembram aquelas pessoas que têm romances online: têm a fezada que eles e o dinheiro foram feitos um para o outro e ainda vão ser muito felizes um dia. Mesmo que nunca se tenham conhecido pessoalmente.

Não admira que o português seja especialmente propenso a expedientes para enriquecer depressa. Tomemos o caso da raspadinha. A raspadinha satisfaz o nosso instinto para o tenho-mais-que-fazer, ao mesmo tempo que activa o processo neurológico-profético responsável pela produção da fezada. No fundo, é um speed dating, que dá a possibilidade que o romance unilateral entre o português e o dinheiro se torne realidade, e se não uma relação significativa, sólida e duradoura, pelo menos que dê direito a uma rapidinha. Em todo o caso, um final feliz.


(para uma performance de Ana Fonseca)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fotobiografia dos Pastorinhos

As 4 fotografias conhecidas dos Pastorinhos representam um inestimável documento histórico. Reflectem tensões internas e as lutas de poder no seio do grupo, bem como aspectos das personalidades de cada um dos videntes: Jacinta, a mais nova, é uma criança emotiva, que chora sempre que come glúten. Francisco, seu irmão mais velho, distingue-se pelo talento musical, que se manifesta sobretudo quando se põe a balir. Lúcia, prima de ambos, é a personalidade dominante do grupo, fruto de uma maturidade precoce: aos 10 anos já tinha a cara de um homem de 40.

 A primeira fotografia dos Pastorinhos coincide com a primeira Aparição da Virgem. Profundamente crentes, Jacinta e Francisco seguram velas, pedindo a Nossa Senhora que lhes dê lume, para poderem acender as velas e rezar a Nossa Senhora a pedir lume. Lúcia, que na altura era budista, converte-se ao Catolicismo. Ao escutar o primeiro segredo de Fátima diz “fónix!!”, seguido de “Amén”. Nossa Senhora pede aos pastorinhos para sorrirem para a fotografia. Os videntes, que nunca tinham visto um sorriso na vida, deformam o rosto e abrem a boca. Será a última vez que os Três Pastorinhos mostram os dentes em público.



A segunda fotografia dos Pastorinhos foi tirada pela própria Virgem, que se desequilibra na descolagem após mais uma Aparição, o que explica a linha do horizonte torta. Solidários com a falta de destreza de Nossa Senhora, os Pastorinhos são obrigados a uma bizarra inclinação de pescoço, e aprendem da pior maneira o que é o esternocleidomastoideo. O semblante concentrado de Lúcia, e o ar piedoso, algo condescendente, de Francisco, contrastam com a ostensiva falta de empenho de Jacinta, que não terá passado despercebido a Nossa Senhora. O esforço de Lúcia e Francisco é recompensado pela Virgem, que oferece a ambos um pacotinho de nozes, que Lúcia abre usando o seu forte maxilar inferior. Pelo contrário, Jacinta recebe uma alergia a frutos secos, e começa a sentir-se excluída dentro do grupo. A harmonia entre os videntes é definitivamente quebrada. 

 A proximidade entre Francisco e Lúcia revela-se de curta duração, e na terceira fotografia são já notórias divergências no seio do grupo. Francisco confronta Lúcia com o facto de ficar sempre ao centro nas fotografias, mostrando a sua vontade de também querer ficar ao meio. Lúcia, que foi ao cabeleireiro de propósito para esta fotografia, rejeita as intenções do primo. Esta imagem é, assim, precedida de uma violenta discussão, que culmina com uma dentada de Lúcia na cabeça de Francisco. Jacinta, transtornada, apercebe-se como o poder corrompeu a prima. 

 Na última fotografia, talvez mais conhecida dos Pastorinhos, é evidente o desgaste interno. A fotografia, feita a pedido de Nossa Senhora para imprimir numa caneca, mostra uma Jacinta cada vez mais inconformada com o facto de ficar sempre na ponta. De mão na anca e olhar desafiador, jura para nunca mais. Lúcia e Francisco já não se falam. Melindrado pelos incidentes da fotografia anterior, Francisco desta vez trouxe um pau, e ameaça bater em Lúcia se esta não lhe der o lugar do meio na fotografia. Lúcia concede, guardando um profundo ressentimento pelo primo. Para Francisco, no entanto, trata-se de vitória com sabor amargo: apercebe-se que cometeu o faux pas de vestir exactamente a mesma roupa das três fotografias anteriores. A Virgem tenta aligeirar o ambiente contando uma anedota racista, mas sem sucesso. Será a última vez que Nossa Senhora vê os Pastorinhos, que viriam a separar-se pouco depois. 

 Francisco e Jacinta abandonam os Pastorinhos, acusando publicamente Lúcia de não saber guardar um segredo. Francisco tenta seguir uma carreira no mundo do espectáculo, fazendo imitações de ovelhas famosas de Aljustrel. Jacinta acalenta o sonho de juntar as profissões de varina com a de ilusionista, e se tornar uma varina mágica. Acabam ambos por morrer de gripe pneumónica, sendo finalmente canonizados em 2017. Lúcia, que não era nenhuma santa, não tem melhor destino: passa o resto da vida a cumprir pena em diversos estabelecimentos conventuais, sendo transferida com regularidade por mau comportamento. Até à data da sua morte, em 2005, continua a receber visitas da Virgem, que a consolava e lhe levava nozes e outros frutos de casca rija.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Apologia do fumador, por um não fumador - Parte 2

Beijar um fumador é como lamber um cinzeiro”: Confesso que nunca lambi cinzeiros (chamem-me antiquado), mas algo me diz que os cinzeiros saem claramente valorizados desta comparação. E será que o fumador - a verdadeira vítima aqui - sabe que tem um companheiro que anda por aí a lamber cinzeiros nas suas costas? Se alguém lambe cinzeiros, talvez beijar um fumador não seja o pior dos seus problemas.

Nesse caso, em vez de se colocar alertas nos maços de tabaco, talvez os pudessem colocar nos cinzeiros: “E porque não tentar lamber um selo?”. Afirmar que beijar um fumador é como lamber um cinzeiro é o mesmo que dizer que fazer dar beijinhos à esquimó a um pasteleiro provoca os diabetes ou que fazer conchinha com um portageiro da Via Verde melhora o trânsito intestinal. 

Fumar mata, é verdade. Mas fala-se dos malefícios do tabaco, sem nunca se referir os seus benefícios, que são muitos. O tabagismo fomenta: 
  1. competências sociais (as pessoas juntam-se para fumar); 
  2. a solidariedade (“arranjas-me um cigarro?”); 
  3. a partilha (“queres lume?”); 
  4. competências matemáticas (“Tenho um cigarro, se te der um fico com zero cigarros”); 
  5. alfabetização económica, como na prisão, onde os cigarros têm valor monetário (“chinar aquele gajo vai-te custar 40 cigarros”); 
  6. o interesse por novas línguas (“quero um Marlboro Light”); 
  7. a linguagem gestual (o gesto universalmente reconhecido para “isqueiro, tens?”); 
  8. o gosto pelo mistério (“viste o meu isqueiro?”); 
  9. a descoberta de novos lugares (“Será que ali vendem tabaco?”); 
  10. o contacto com novas culturas (“Vou ao indiano comprar tabaco”). 
Enquanto não-fumador não concordo com a designação “fumador passivo”. É uma expressão politicamente correcta e paternalista que sugere apatia, conformismo, submissão e esconde um juízo moral duplo: a vitimização de quem não fuma e a diabolização do fumador; torna o não-fumador num coitadinho à mercê do “fumador activo”, um papão que anda por aí a violar pulmões. 

Quando muito sou cúmplice e não vítima do consumo de tabaco. Se, por exemplo, eu inalar uma bufa de alguém que gosta de as largar pela calada, aí sim, considero-me vítima, pois não me foi dado a escolher a minha participação. Mas se alguém disser “atenção que vai sair” (falamos de um individuo cuja idoneidade e tacto se manifestam no gesto de avisar o acompanhante para a eminência do peido) e o outro responder “quero estar ao teu lado quando isso acontecer”, será que se pode designar o segundo como “passivo”? Ainda que não haja propriamente uma agenciação no acto criativo de produção e emissão da bufa, há uma participação voluntária no fenómeno gasoso. Sugiro por isso algumas alternativas que, julgo, irão contribuir para a emancipação do fumador passivo: “fumador complementar”, “assistente de inalação”, ou “tabagista não praticante”. 

Para todos os efeitos eu fumo, e faço-o voluntária e conscientemente. Apenas não sou eu a comprar, acender e a fumar o cigarro; deixo que outros o façam por mim e ainda poupo bastante dinheiro. No final, talvez não passe de um “fumador forreta”.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Salazar e as cadeiras: Vol. 1

Uma queda da cadeira precipitou o final da vida de António de Oliveira Salazar. Na verdade, não foi a primeira vez que Salazar caiu da cadeira. Pese o seu génio para os números, Salazar era algo inapto com cadeiras. Fonte de desconforto e embaraço, esta incapacidade foi escondida durante anos por Salazar, que evitava estar na presença de cadeiras, bancos, sanitas e bidés. E, obrigado a sentar-se, não o fazia sem o auxílio de um terço e uma imagem dos pastorinhos. O que se segue é o relato verídico, e de um valor histórico inestimável, da penosa relação entre António de Oliveira Salazar e as cadeiras, das quais passou a vida inteira a cair e a erguer-se. E a cair novamente.

Cadeira Zigzag, Gerrit Rietveld (1934)

O Presidente do Conselho sofreu muito com a cadeira Zigzag, que fazia dos joelhos de Salazar as suas vítimas preferenciais. À conta da cadeira Rietveld, Salazar terá sofrido várias lesões, entorses, roturas de ligamentos, fracturas da rótula, tendo inclusivamente partido a tíbia, o perónio e o períneo. Não espanta, por isso, que o uso de joelheiras e caneleiras fosse obrigatório junto da cadeira.

Salazar notava com agrado que o ziguezague evocava as duas letras dominantes no seu nome, o “S” e o “Z”. Ainda assim, Salazar, muito dado a enjoos e a torcicolos, não podia olhar fixamente para o ziguezague durante mais que alguns segundos (numa ocasião terá mesmo perdido os sentidos; felizmente a queda foi amparada por um busto do Cardeal Cerejeira).

Com efeito, não demorou até que Salazar passasse também a usar um capacete, especialmente feito a partir de chifres de cabra-montês, os mais adequados para suportar um eventual impacto. Temiam-se os efeitos da cadeira na digníssima, mas frágil testa do Presidente do Conselho, acarretando não só riscos para a Nação, como uma dispendiosa limpeza da carpete suja de miolos, incomportável para os depauperados cofres da Pátria. Ainda que extremamente eficaz, todo o aparato de segurança era porém pouco prático.

Apesar de alguns ensaios “muito satisfatórios”, incluindo um em que conseguiu mesmo sentar três quartos da nádega esquerda na cadeira, o Presidente do Conselho foi aconselhado a abandonar definitivamente a cadeira Zigzag. Contudo, ao seu jeito, Salazar nunca deixou de sentir uma profunda empatia pela severidade e o despojamento da cadeira, que lhe faziam lembrar a sua pessoa, elogiando a cadeira Rietveld por ser “poupadinha”, como ele.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Apologia do fumador, por um não fumador - Parte 1

Eu não fumo, mas sempre que posso tenho um cigarro na mão. Um cigarro faz-nos parecer mais assertivos e coloca maior intensidade naquilo que estamos a dizer, independentemente do que seja. Já o mesmo não se pode dizer de um folhado de salsicha. Com um cigarro qualquer um tem a altivez de um escolástico, a gravidade de um intelectual e a autoridade de um evangelho. Ter um folhado na mão é basicamente ter o carisma de uma poça. 

Imagine-se as seguintes situações: 1) Na sala de espera da maternidade, um homem aguarda o nascimento do primeiro filho. Nervosamente, vai fumando cigarro atrás de cigarro; 2) Dois cowboys em duelo ao pôr-do-sol no velho Oeste. Ouve-se um disparo e um deles cai. O vencedor aproxima-se do cowboy caído e oferece-lhe o seu cigarro. O moribundo inclina a cabeça, e a custo dá um bafo no cigarro, no mesmo instante em que fecha os olhos e morre. 3) Um prisioneiro de guerra escava a sua própria sepultura. Sabe que vai morrer. Prestes a ser fuzilado, pede ao seu cárcere um cigarro, o último que irá fumar. Agora imagine-se exactamente as mesmas cenas mas com folhados de salsicha. Não têm o mesmo impacto. 

Os meus pais fumaram, tive namoradas fumadoras, e quase todos os meus amigos fumam, mas eu não fumo. Alguns não fumadores desenvolvem uma espécie de superioridade moral relativamente aos fumadores. Porque não fumam acham-se exemplos de virtude. Eu não. Por várias vezes tentei mas nunca consegui ser fumador. Simplesmente não tive a força de vontade necessária e acabei por desistir. É por isso que não me acho melhor que os fumadores, apenas porque não fumo. Antes pelo contrário. Qual dos dois vai dar um melhor exemplo para as gerações vindouras, um fumador, ou um não fumador como eu, que é basicamente um desistente? 

Eu admiro os fumadores, que, ao contrário de mim, não desistem mas resistem e persistem, apesar de todas as restrições e inibições a que são sujeitos. Por exemplo, existe uma discriminação evidente na forma como os fumadores são tratados em comparação com outros consumidores. A função de todo produto de consumo é manter um estado de permanente flirt com o consumidor, insinuando-se-lhe como uma ninfomaníaca insaciável que dispensa preliminares, mesmo que no final se trate apenas de caldos de galinha em cubos. Já o tabaco comporta-se como um passivo-agressivo com baixa auto-estima, que não só não suporta olhar-se ao espelho como só está bem a magoar aqueles que mais gostam dele. 

O tabaco é o único produto que faz juízos sobre as pessoas que o compram. O aviso nos maços “Fumar prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam” é apenas uma forma mal reprimida de “QUE TIPO DE MONSTRO SÁDICO ÉS TU?”. Eu não gostaria de ser julgado pelas coisas que compro. Isto é mesmo que ter as embalagens de papel higiénico a dizer “Só fazes merda” ou uma embalagem de 1 lt. de gelado dizer “um dia vais encontrar alguém”. 

Comparemos com outras adições, como o açúcar e o vinho. Apesar do número crescente de diabéticos, e de as pessoas estarem cada vez mais obesas, os pacotinhos de açúcar não trazem avisos, mas receitas. Isto é, em vez de nos alertarem para os perigos do açúcar, até nos dão dicas sobre diferentes formas de formas de enfiarmos ainda mais açúcar no nosso corpo. 

Já o “Beba com moderação” do álcool é uma sugestão que fica no ar, feita com a complacência de um velho amigo (tipo, “whatever, man, é contigo”). O dedo apontado ao fumador, presumível culpado sem lugar a prova em contrário, acusando-o da desgraça própria e alheia, torna-se a palmadinha cúmplice nas costas do consumidor de álcool, enquanto a outra mão vai enchendo o copo. No final, “Beba com moderação” pode até ser contraproducente: um tipo que leve o aviso à letra, e fique a noite inteira à espera que uma tal de moderação apareça para beber com ele, vai acabar por se enfrascar e beber a garrafa inteira. 

Desde há uns anos que os fumadores se tornaram o bode expiatório da nossa sociedade. Estes proscritos são constantemente perseguidos, acusados de todos os crimes e vêem as suas liberdades e direitos cada vez mais reduzidos. No fundo, os fumadores são como o povo Judeu do nosso tempo: a sua presença é expressamente indesejada na maioria dos espaços públicos, sendo escorraçados para guetos sobrelotados e sem condições. E tal como os judeus durante o Holocausto, os fumadores não só são obrigados a assistir a atrocidades como aquelas imagens que vêm nos maços, como estão também em contacto diário com grandes quantidades de cinza. 

Mas ao contrário de uma religião, os fumadores não procuram converter ninguém. Até dizem: “nunca fumes, não experimentes sequer”, “faz como eu digo, não faças como eu faço”. Isto é o mesmo que uma testemunha de Jeová ir bater-vos à porta e vos pedir para que não se juntem a eles.

(continua...)



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

WCSI: Investigação criminal sanitária

   Era uma segunda-feira igual a tantas outras, com a única diferença de que esta sucedia a um sábado, o que tecnicamente a tornava um domingo. Ligaram-me de madrugada a relatar uma ocorrência. Segui imediatamente para o local, sem tempo de me barbear ou pintar as unhas. A cena do crime já tinha sido isolada: fora encontrada uma sanita imaculadamente limpa numa casa de banho pública. Era mais uma de uma série de sanitas que vinham aparecendo limpas por toda a cidade. Como habitualmente, não havia testemunhas, apenas um fresco odor a limão. Comecei imediatamente a trabalhar no caso. 

   Em vinte anos de carreira assisti a muitas coisas que me provavam a faceta mais vil da alma humana, a maior parte delas em reality shows e espectáculos de variedades, mas nada me tinha preparado para isto: uma superfície de loiça completamente desinfectada, sem qualquer pestilência ou vestígios do rol indignidades que ali ocorre (algumas apenas comparáveis aos famosos cozinhados da minha sogra). Tapei a boca com um lenço, o cheiro a limpo dava-me náuseas. Pensar que um ser humano fora responsável por tamanha atrocidade abalava qualquer esperança num destino bom para a Humanidade. Estava empenhado em caçar este tipo. 

   A Unidade estava há muito sem cães pisteiros (um fora atropelado e o outro estava a convalescer de uma complicada operação de mudança de sexo), pelo que pedi a uma grávida que farejasse o local do crime. Sem sucesso, a que acresceu ainda o infortúnio de a grávida ter apanhado pulgas, pelo que teve de ser abatida. 

   Nos dias que se seguiram interroguei algumas dezenas de pessoas e electrodomésticos, mas em vão. Sem pistas e nem testemunhas, a minha cabeça enchia-se de questões para as quais não tinha resposta: Tratar-se-ia de um crime passional ou premeditado? Haveria cúmplices? Como é que se escreve, piaçá ou piaçaba? Foi aí que me lembrei do piaçaba. Pedi imediatamente que se procedesse à recolha de impressões digitais. 

   Era o avanço de que estava à espera. As impressões pertenciam a um homem caucasiano na casa dos 50 anos e de aspecto asseado (um tarado). Resolvi fazer-lhe uma visita.

   O suspeito começou a fugir assim que me viu. Corri atrás dele o mais rápido que pude (tinha escolhido mal o dia para estrear os sapatos novos). Felizmente o homem interrompeu a fuga para indicar as horas a um transeunte. Saltei sobre ele e gritei “São horas de apanhar um criminoso!”, apesar de o relógio indicar claramente sete menos quinze. Se estava contente por ter apanhado o suspeito, estava triste por ninguém para além dele ter presenciado o meu momento de inspiração. Revistei-o. Trazia consigo luvas de borracha, um esfregão e garrafas de plástico com líquido no interior. Mais tarde, os testes deram positivo para lixívia e WC pato. 


   Durante o interrogatório usei a velha táctica do polícia bom e do polícia bombom, em que o primeiro interroga o suspeito, enquanto o segundo fica sentado a um canto embrulhado em papel brilhante e com um aspecto delicioso. Resultou. O suspeito confessou todos os crimes e depois contou-me a sua história. 

   Disse-me que era um poeta aclamado, que cantava as mais subtis emanações da beleza e do amor, mas a sua paixão secreta sempre tinham sido as fossas e esgotos. Falou-me da infância, feliz até ao incidente com um falso peixinho-dourado: após anos a viver lá em casa descobriu-se que o peixinho era afinal um instrutor de judo no desemprego. Quando este morreu, demoraram horas até o conseguirem despejar pela sanita. Os seus crimes eram a forma de manter vivo o sonho de menino que lhe fora negado. 

   Não pude deixar de sentir pena pelo tipo enquanto este era levado em algemas. Mas foi para casos destes que me tornei detective e não anão de circo (o facto de não ser anão foi sempre um forte handicap para mim). Caso encerrado. Fui para casa e pus-me a admirar a minha sanita. Contemplei o espesso sarro que ali crescia, miscelânea de toda a sorte de imundície, pecúlio de anos e anos de continuada porcaria. Uma valente esterqueira da qual me podia orgulhar. Pensei no meu filho e depois chorei. Hoje ele podia dormir descansado, as ruas estavam mais seguras.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Descobrimentos: quem foram e como viviam

   Os Descobrimentos foram de um período histórico dominado pelo medo e pela ignorância, em que se acreditava que a terra era plana e as tábuas de passar a ferro eram redondas.

   Na verdade, “Descobrimentos” é um termo bastante infantil, uma vez que subentende que uma parte do mundo se estava a esconder deliberadamente de outra. É como se tudo não passasse de um enorme jogo de escondidas, quando na verdade, a parte do mundo que foi “descoberta” não sabia sequer que estava a jogar.[1]  Imagine-se pois, que os portugueses não têm “descoberto” nada; este período chamar-se-ia apenas os “Aborrecimentos”, e a grande proeza lembrada seria aquela vez em que o Bartolomeu Dias não enjoou no barco.

   Pelos territórios descobertos, os Portugueses deixavam marcos, sinalizando a sua presença nos novos territórios; assim como fortificações e porteiras, que os guardavam e impediam a passagem de frotas inimigas, especialmente depois de o chão ter sido lavado.

   Além de terem “descoberto” novos mundos, os Portugueses gabam-se ainda de terem inventado o mulato. A invenção do mulato foi uma experiência científica que resultou da rigorosa e a meticulosa violação em massa de todas as mulheres que conseguiam apanhar.[2]  A violação era aliás dos passatempos preferidos das famílias portuguesas, juntamente os autos de fé e a petanca. Outras tentativas de cruzamento selectivo foram igualmente tentadas, com a violação metódica de jaguares, capivaras, ananases e tatus, e em várias posições sexuais. Ainda que a capivara reunisse a preferência dos marujos, e os ananases gostassem que lhes chamassem nomes na cama, nenhuma das experiências teve o sucesso observado com as nativas. Por via das dúvidas, a experiência foi meticulosamente repetida ao longo dos quinhentos anos subsequentes, e os resultados observados, analisados, e de seguida também eles violados, reforçando as conclusões iniciais. 

   Entre outros contributos das Descobertas Portuguesas, registe-se ainda a transmissão do escorbuto ao elefante indiano, após uma sessão de jogar ao quarto escuro em Calecute, e de uma nova espécie de piolho com tendência para o fatalismo.


[1] Neste sentido, imagine-se a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil e o contacto com o primeiro indígena. Pedro Álvares Cabral aproxima-se, cauteloso, do índio, toca-lhe no braço e diz “agora, estás tu!”, correndo para o barco e fugindo volta a Lisboa a cantar “não me apanhas, não me apanhas”.
[2] Na altura não violar uma mulher era considerado uma grande heresia.