sexta-feira, 16 de junho de 2017

O idiota de aldeia, uma profissão em vias de extinção

O idiota de aldeia está em vias de extinção. O gradual desaparecimento desta figura mítica do mundo rural é uma consequência muitas vezes ignorada do êxodo para as grandes cidades. A real ameaça ao idiota de aldeia acompanha a lenta dissolução de outros alicerces do Portugal profundo, como o casamento entre primos directos, o cão chamado Piloto e as pessoas chamadas Perpétua.

Há não muito tempo, não havia aldeia que não se orgulhasse do seu respectivo idiota, cujas competências eram tão diversas como o aconselhamento a girassóis com problemas de orientação, ou a recensão e controlo demográfico de caganitas. No delicado equilíbrio social da aldeia, em que cada um dos habitantes desempenha um papel específico no funcionamento do todo, e em directa dependência uns dos outros, o idiota distinguia-se como figura ímpar da sua comunidade. 

A deslocação da população rural para o contexto urbano teve consequências drásticas para a vida do idiota de aldeia. Além da ameaça ao frágil ecossistema de que faz parte, o idiota de aldeia viu ainda nascer o seu antagonista: o idiota de cidade. 

À medida que o idiota de aldeia começou a ser mais raro que um falante de mirandês a cavalo de um unicórnio, o idiota de cidade crescia que nem pêlos nas sobrancelhas de um velho e multiplicava-se que nem informáticos nos anos 90. O idiota passou, assim, de figura única no imaginário da aldeia (era improvável encontrar-se dois idiotas na mesma aldeia, uma vez que têm um forte sentido territorial), a apenas mais um na multidão de idiotas anónimos que compõem as nossas cidades. A proliferação do idiota comum vulgarizou o papel de idiota, agora ao alcance de qualquer palerma ou imbecil, manchando o bom nome de uma ocupação outrora orgulhosa e digna, e altamente selectiva. Daqui naturalmente se conclui que o idiota de cidade, domesticado e amolecido pelo conforto urbano, mais não é que um retrocesso na grande tradição dos idiotas de aldeia. 

Apesar das evidentes afinidades, existem importantes diferenças entre o idiota e o político. Além de que qualquer um pode ser político, na política qualquer cargo não serve mais que trampolim para um cargo superior. Ser idiota de aldeia porém, não só não é compatível com aparelhos de ginástica, não obedece a uma hierarquia de poder que permita ao idiota da aldeia ascender a idiota da junta, seguido de idiota municipal, e finalmente, de primeiro idiota a idiota da república, com autoridade sobre aqueles idiotas todos. Simplesmente porque ser idiota da aldeia é já alcançar o grau máximo de prestígio na especialidade. 

Ser idiota de aldeia é uma vocação ao alcance de eleitos, abençoados com aquela chispa divina que faz deflagrar a chama descontrolada da estupidez ou até mesmo do fogo, caso acumulem as funções de idiota com as de incendiário da aldeia. Diríamos que é mais fácil para os monges budistas acharem o novo Dalai Lama que para os aldeões acharem um novo idiota que lhes encha as medidas. Urge pois zelar pela preservação desta figura incontornável da ruralidade, para que os nossos filhos possam saber o que é o idiota de aldeia, e quem sabe, possam mesmo vir a sê-lo.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Portugueses pelo Mundo: Santo António

Santo António recebe-nos na sua modesta cela de Pádua. Há muito que a típica pestilência a cadáver molhado, tão característica da Idade Média, foi substituída pelo cheiro a peixe, resultado dos sermões do santo lisboeta. A cela de Santo António é despojada. Enquanto franciscano fez um voto de pobreza, reduzindo os seus bens ao essencial: um rosário, uma Bíblia, e uma lâmina e um penico para aparar a tonsura (conta-nos que teve ainda um amigo imaginário, mas que foi obrigado a devolvê-lo assim que os outros franciscanos descobriram). 

Desde pequeno que António sonha em tornar-se santo, preferencialmente através do martírio. “Enquanto as outras crianças da minha rua queriam ser moleiros ou vítimas da peste, eu brincava aos mártires”, afirma, recordando as brincadeiras de menino em que fingia que era lapidado, que tinha a cabeça empalada num pau ou era esfolado vivo. Após a formação em Lisboa e Coimbra, parte para Marrocos à procura do martírio com que sempre sonhou: “Infelizmente o nosso país não tem condições para quem quer ser mártir, pelo que a solução foi o estrangeiro. E quando soube que andavam a martirizar franciscanos em Marrocos, não pensei duas vezes”. Parte com a mala cheia de sonhos, uma vez que os franciscanos não podem possuir bens terrenos, e a esperança de uma morte violenta. Infelizmente, e já em Marrocos, adoece gravemente: “Tinha muitas dores de cabeça e custava-me a engolir, não me sentia em condições para sair da cama, muito menos para ser decapitado ou degolado. Não fui martirizado, mas ao menos fiquei com a minha saúde, que é o mais importante”, conclui. 

De regresso à Europa, Santo António fixa-se definitivamente em Pádua, onde começa a operar milagres, e a encontrar coisas perdidas. Torna-se orador afamado e figura influente na Igreja Católica, conseguindo ainda o prestigiado cargo de babysitter do Menino Jesus. “Ando com o Menino Jesus ao colo para todo o lado. Não é nenhum martírio, mas também não faz nada bem às costas, além de que é preciso uma paciência de santo para aturar o Menino”, admite. 

É em Pádua que Santo António tem uma ideia que lhe irá trazer a canonização com que sempre sonhou: “Reparei que os sermões, as conversões e castigos eram aplicados apenas às pessoas, nada estava a ser nada feito em relação aos peixes. Encontrei um nicho por explorar”. Santo António começa então a pregar aos peixes. “Nunca mais se esqueço da primeira vez que confessei um tamboril ou ensinei uma solha a rezar uma Avé Maria”, afirma emocionado. No entanto, e apesar da grande taxa de sucesso, Santo António confirma que encontra todos os dias peixes que ainda resistem à conversão. “Esses casos – afirma – recebem o mesmo tratamento que é dado aos hereges, e são queimados na fogueira.” Sardinhas, douradas, robalos, carapaus, bacalhau, chocos, polvo às quintas-feiras, peixes-espada e salmões, entre outros, são, segundo Santo António, os peixes mais complicados para converter. “É desolador vê-los a acabar na grelha como hereges”, afirma, enquanto tenta, novamente sem sucesso, converter um pimento. 

Santo António é o exemplo derradeiro de um português que alcança o sucesso no estrangeiro. Agora que cumpriu o seu sonho de menino de se tornar um santo mundialmente reconhecido, garante que os seus planos passam por continuar a pregar aos peixes e expandir os sermões e conversões a outros animais, como o camarão-tigre, o porco preto e a raça mirandesa. “Se não se converterem, lá terão de ir para a grelha”, lamenta.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Nós, o dinheiro e a raspadinha

A relação dos portugueses com o dinheiro é em tudo semelhante a uma história de amor. Evidentemente que se trata de um amor não correspondido: o dinheiro não quer ter nada a ver com portugueses, e é, aliás, conhecida a sua predilecção por outras nacionalidades.

Uma das razões que impede que a afeição dos portugueses pelo dinheiro se desenvolva para além do amor platónico, e eventualmente seja consumada em amor carnal, é a nossa falta de paciência para engates muito demorados. O tenho-mais-que-fazer é um dos instintos mais poderosos da psique lusitana. Podemos mesmo afirmar que o português não faz, o português despacha. No dinheiro, o que o português procura verdadeiramente é passar do amor platónico ao cigarro pós-coital.

No entanto, o que nos falta em paciência, compensamos largamente em fé. Existe um sentimento de tão profunda e exclusivamente português que ocupa com a saudade e a fobia a correntes de ar o lugar cimeiro do repositório emocional lusitano: a fezada. O leitor, ávido por mais esclarecimentos,
perguntará o que é a fezada. Nós explicamos, seu lambão.

Em matérias do impossível, a fezada funciona como uma espécie de polícia de intervenção num bairro problemático: vai onde o milagre não se atreve a ir. Ter uma fezada é ser vidente em causa própria e acreditar em algo que nem mesmo Deus acredita. E no que toca a dinheiro, os portugueses lembram aquelas pessoas que têm romances online: têm a fezada que eles e o dinheiro foram feitos um para o outro e ainda vão ser muito felizes um dia. Mesmo que nunca se tenham conhecido pessoalmente.

Não admira que o português seja especialmente propenso a expedientes para enriquecer depressa. Tomemos o caso da raspadinha. A raspadinha satisfaz o nosso instinto para o tenho-mais-que-fazer, ao mesmo tempo que activa o processo neurológico-profético responsável pela produção da fezada. No fundo, é um speed dating, que dá a possibilidade que o romance unilateral entre o português e o dinheiro se torne realidade, e se não uma relação significativa, sólida e duradoura, pelo menos que dê direito a uma rapidinha. Em todo o caso, um final feliz.


(para uma performance de Ana Fonseca)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fotobiografia dos Pastorinhos

As 4 fotografias conhecidas dos Pastorinhos representam um inestimável documento histórico. Reflectem tensões internas e as lutas de poder no seio do grupo, bem como aspectos das personalidades de cada um dos videntes: Jacinta, a mais nova, é uma criança emotiva, que chora sempre que come glúten. Francisco, seu irmão mais velho, distingue-se pelo talento musical, que se manifesta sobretudo quando se põe a balir. Lúcia, prima de ambos, é a personalidade dominante do grupo, fruto de uma maturidade precoce: aos 10 anos já tinha a cara de um homem de 40.

 A primeira fotografia dos Pastorinhos coincide com a primeira Aparição da Virgem. Profundamente crentes, Jacinta e Francisco seguram velas, pedindo a Nossa Senhora que lhes dê lume, para poderem acender as velas e rezar a Nossa Senhora a pedir lume. Lúcia, que na altura era budista, converte-se ao Catolicismo. Ao escutar o primeiro segredo de Fátima diz “fónix!!”, seguido de “Amén”. Nossa Senhora pede aos pastorinhos para sorrirem para a fotografia. Os videntes, que nunca tinham visto um sorriso na vida, deformam o rosto e abrem a boca. Será a última vez que os Três Pastorinhos mostram os dentes em público.



A segunda fotografia dos Pastorinhos foi tirada pela própria Virgem, que se desequilibra na descolagem após mais uma Aparição, o que explica a linha do horizonte torta. Solidários com a falta de destreza de Nossa Senhora, os Pastorinhos são obrigados a uma bizarra inclinação de pescoço, e aprendem da pior maneira o que é o esternocleidomastoideo. O semblante concentrado de Lúcia, e o ar piedoso, algo condescendente, de Francisco, contrastam com a ostensiva falta de empenho de Jacinta, que não terá passado despercebido a Nossa Senhora. O esforço de Lúcia e Francisco é recompensado pela Virgem, que oferece a ambos um pacotinho de nozes, que Lúcia abre usando o seu forte maxilar inferior. Pelo contrário, Jacinta recebe uma alergia a frutos secos, e começa a sentir-se excluída dentro do grupo. A harmonia entre os videntes é definitivamente quebrada. 

 A proximidade entre Francisco e Lúcia revela-se de curta duração, e na terceira fotografia são já notórias divergências no seio do grupo. Francisco confronta Lúcia com o facto de ficar sempre ao centro nas fotografias, mostrando a sua vontade de também querer ficar ao meio. Lúcia, que foi ao cabeleireiro de propósito para esta fotografia, rejeita as intenções do primo. Esta imagem é, assim, precedida de uma violenta discussão, que culmina com uma dentada de Lúcia na cabeça de Francisco. Jacinta, transtornada, apercebe-se como o poder corrompeu a prima. 

 Na última fotografia, talvez mais conhecida dos Pastorinhos, é evidente o desgaste interno. A fotografia, feita a pedido de Nossa Senhora para imprimir numa caneca, mostra uma Jacinta cada vez mais inconformada com o facto de ficar sempre na ponta. De mão na anca e olhar desafiador, jura para nunca mais. Lúcia e Francisco já não se falam. Melindrado pelos incidentes da fotografia anterior, Francisco desta vez trouxe um pau, e ameaça bater em Lúcia se esta não lhe der o lugar do meio na fotografia. Lúcia concede, guardando um profundo ressentimento pelo primo. Para Francisco, no entanto, trata-se de vitória com sabor amargo: apercebe-se que cometeu o faux pas de vestir exactamente a mesma roupa das três fotografias anteriores. A Virgem tenta aligeirar o ambiente contando uma anedota racista, mas sem sucesso. Será a última vez que Nossa Senhora vê os Pastorinhos, que viriam a separar-se pouco depois. 

 Francisco e Jacinta abandonam os Pastorinhos, acusando publicamente Lúcia de não saber guardar um segredo. Francisco tenta seguir uma carreira no mundo do espectáculo, fazendo imitações de ovelhas famosas de Aljustrel. Jacinta acalenta o sonho de juntar as profissões de varina com a de ilusionista, e se tornar uma varina mágica. Acabam ambos por morrer de gripe pneumónica, sendo finalmente canonizados em 2017. Lúcia, que não era nenhuma santa, não tem melhor destino: passa o resto da vida a cumprir pena em diversos estabelecimentos conventuais, sendo transferida com regularidade por mau comportamento. Até à data da sua morte, em 2005, continua a receber visitas da Virgem, que a consolava e lhe levava nozes e outros frutos de casca rija.



quinta-feira, 18 de maio de 2017

Madonna em Lisboa

Madonna está em Lisboa e visitou o Oceanário. Como habitualmente faz nas suas viagens, a cantora americana prepara-se agora para adoptar um atum e um peixe espada.