segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Apologia do fumador, por um não fumador - Parte 2

Beijar um fumador é como lamber um cinzeiro”: Confesso que nunca lambi cinzeiros (chamem-me antiquado), mas algo me diz que os cinzeiros saem claramente valorizados desta comparação. E será que o fumador - a verdadeira vítima aqui - sabe que tem um companheiro que anda por aí a lamber cinzeiros nas suas costas? Se alguém lambe cinzeiros, talvez beijar um fumador não seja o pior dos seus problemas.

Nesse caso, em vez de se colocar alertas nos maços de tabaco, talvez os pudessem colocar nos cinzeiros: “E porque não tentar lamber um selo?”. Afirmar que beijar um fumador é como lamber um cinzeiro é o mesmo que dizer que fazer dar beijinhos à esquimó a um pasteleiro provoca os diabetes ou que fazer conchinha com um portageiro da Via Verde melhora o trânsito intestinal. 

Fumar mata, é verdade. Mas fala-se dos malefícios do tabaco, sem nunca se referir os seus benefícios, que são muitos. O tabagismo fomenta: 
  1. competências sociais (as pessoas juntam-se para fumar); 
  2. a solidariedade (“arranjas-me um cigarro?”); 
  3. a partilha (“queres lume?”); 
  4. competências matemáticas (“Tenho um cigarro, se te der um fico com zero cigarros”); 
  5. alfabetização económica, como na prisão, onde os cigarros têm valor monetário (“chinar aquele gajo vai-te custar 40 cigarros”); 
  6. o interesse por novas línguas (“quero um Marlboro Light”); 
  7. a linguagem gestual (o gesto universalmente reconhecido para “isqueiro, tens?”); 
  8. o gosto pelo mistério (“viste o meu isqueiro?”); 
  9. a descoberta de novos lugares (“Será que ali vendem tabaco?”); 
  10. o contacto com novas culturas (“Vou ao indiano comprar tabaco”). 
Enquanto não-fumador não concordo com a designação “fumador passivo”. É uma expressão politicamente correcta e paternalista que sugere apatia, conformismo, submissão e esconde um juízo moral duplo: a vitimização de quem não fuma e a diabolização do fumador; torna o não-fumador num coitadinho à mercê do “fumador activo”, um papão que anda por aí a violar pulmões. 

Quando muito sou cúmplice e não vítima do consumo de tabaco. Se, por exemplo, eu inalar uma bufa de alguém que gosta de as largar pela calada, aí sim, considero-me vítima, pois não me foi dado a escolher a minha participação. Mas se alguém disser “atenção que vai sair” (falamos de um individuo cuja idoneidade e tacto se manifestam no gesto de avisar o acompanhante para a eminência do peido) e o outro responder “quero estar ao teu lado quando isso acontecer”, será que se pode designar o segundo como “passivo”? Ainda que não haja propriamente uma agenciação no acto criativo de produção e emissão da bufa, há uma participação voluntária no fenómeno gasoso. Sugiro por isso algumas alternativas que, julgo, irão contribuir para a emancipação do fumador passivo: “fumador complementar”, “assistente de inalação”, ou “tabagista não praticante”. 

Para todos os efeitos eu fumo, e faço-o voluntária e conscientemente. Apenas não sou eu a comprar, acender e a fumar o cigarro; deixo que outros o façam por mim e ainda poupo bastante dinheiro. No final, talvez não passe de um “fumador forreta”.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Salazar e as cadeiras: Vol. 1

Uma queda da cadeira precipitou o final da vida de António de Oliveira Salazar. Na verdade, não foi a primeira vez que Salazar caiu da cadeira. Pese o seu génio para os números, Salazar era algo inapto com cadeiras. Fonte de desconforto e embaraço, esta incapacidade foi escondida durante anos por Salazar, que evitava estar na presença de cadeiras, bancos, sanitas e bidés. E, obrigado a sentar-se, não o fazia sem o auxílio de um terço e uma imagem dos pastorinhos. O que se segue é o relato verídico, e de um valor histórico inestimável, da penosa relação entre António de Oliveira Salazar e as cadeiras, das quais passou a vida inteira a cair e a erguer-se. E a cair novamente.

Cadeira Zigzag, Gerrit Rietveld (1934)

O Presidente do Conselho sofreu muito com a cadeira Zigzag, que fazia dos joelhos de Salazar as suas vítimas preferenciais. À conta da cadeira Rietveld, Salazar terá sofrido várias lesões, entorses, roturas de ligamentos, fracturas da rótula, tendo inclusivamente partido a tíbia, o perónio e o períneo. Não espanta, por isso, que o uso de joelheiras e caneleiras fosse obrigatório junto da cadeira.

Salazar notava com agrado que o ziguezague evocava as duas letras dominantes no seu nome, o “S” e o “Z”. Ainda assim, Salazar, muito dado a enjoos e a torcicolos, não podia olhar fixamente para o ziguezague durante mais que alguns segundos (numa ocasião terá mesmo perdido os sentidos; felizmente a queda foi amparada por um busto do Cardeal Cerejeira).

Com efeito, não demorou até que Salazar passasse também a usar um capacete, especialmente feito a partir de chifres de cabra-montês, os mais adequados para suportar um eventual impacto. Temiam-se os efeitos da cadeira na digníssima, mas frágil testa do Presidente do Conselho, acarretando não só riscos para a Nação, como uma dispendiosa limpeza da carpete suja de miolos, incomportável para os depauperados cofres da Pátria. Ainda que extremamente eficaz, todo o aparato de segurança era porém pouco prático.

Apesar de alguns ensaios “muito satisfatórios”, incluindo um em que conseguiu mesmo sentar três quartos da nádega esquerda na cadeira, o Presidente do Conselho foi aconselhado a abandonar definitivamente a cadeira Zigzag. Contudo, ao seu jeito, Salazar nunca deixou de sentir uma profunda empatia pela severidade e o despojamento da cadeira, que lhe faziam lembrar a sua pessoa, elogiando a cadeira Rietveld por ser “poupadinha”, como ele.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

Deficiências da fala

É trágico verificar que pessoas com problemas de dicção frequentemente recebam nomes que eles próprios não conseguem dizer. Por exemplo, é bem possível que o Slavoj Zizek nunca venha a pronunciar o seu próprio nome correctamente. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Apologia do fumador, por um não fumador - Parte 1

Eu não fumo, mas sempre que posso tenho um cigarro na mão. Um cigarro faz-nos parecer mais assertivos e coloca maior intensidade naquilo que estamos a dizer, independentemente do que seja. Já o mesmo não se pode dizer de um folhado de salsicha. Com um cigarro qualquer um tem a altivez de um escolástico, a gravidade de um intelectual e a autoridade de um evangelho. Ter um folhado na mão é basicamente ter o carisma de uma poça. 

Imagine-se as seguintes situações: 1) Na sala de espera da maternidade, um homem aguarda o nascimento do primeiro filho. Nervosamente, vai fumando cigarro atrás de cigarro; 2) Dois cowboys em duelo ao pôr-do-sol no velho Oeste. Ouve-se um disparo e um deles cai. O vencedor aproxima-se do cowboy caído e oferece-lhe o seu cigarro. O moribundo inclina a cabeça, e a custo dá um bafo no cigarro, no mesmo instante em que fecha os olhos e morre. 3) Um prisioneiro de guerra escava a sua própria sepultura. Sabe que vai morrer. Prestes a ser fuzilado, pede ao seu cárcere um cigarro, o último que irá fumar. Agora imagine-se exactamente as mesmas cenas mas com folhados de salsicha. Não têm o mesmo impacto. 

Os meus pais fumaram, tive namoradas fumadoras, e quase todos os meus amigos fumam, mas eu não fumo. Alguns não fumadores desenvolvem uma espécie de superioridade moral relativamente aos fumadores. Porque não fumam acham-se exemplos de virtude. Eu não. Por várias vezes tentei mas nunca consegui ser fumador. Simplesmente não tive a força de vontade necessária e acabei por desistir. É por isso que não me acho melhor que os fumadores, apenas porque não fumo. Antes pelo contrário. Qual dos dois vai dar um melhor exemplo para as gerações vindouras, um fumador, ou um não fumador como eu, que é basicamente um desistente? 

Eu admiro os fumadores, que, ao contrário de mim, não desistem mas resistem e persistem, apesar de todas as restrições e inibições a que são sujeitos. Por exemplo, existe uma discriminação evidente na forma como os fumadores são tratados em comparação com outros consumidores. A função de todo produto de consumo é manter um estado de permanente flirt com o consumidor, insinuando-se-lhe como uma ninfomaníaca insaciável que dispensa preliminares, mesmo que no final se trate apenas de caldos de galinha em cubos. Já o tabaco comporta-se como um passivo-agressivo com baixa auto-estima, que não só não suporta olhar-se ao espelho como só está bem a magoar aqueles que mais gostam dele. 

O tabaco é o único produto que faz juízos sobre as pessoas que o compram. O aviso nos maços “Fumar prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam” é apenas uma forma mal reprimida de “QUE TIPO DE MONSTRO SÁDICO ÉS TU?”. Eu não gostaria de ser julgado pelas coisas que compro. Isto é mesmo que ter as embalagens de papel higiénico a dizer “Só fazes merda” ou uma embalagem de 1 lt. de gelado dizer “um dia vais encontrar alguém”. 

Comparemos com outras adições, como o açúcar e o vinho. Apesar do número crescente de diabéticos, e de as pessoas estarem cada vez mais obesas, os pacotinhos de açúcar não trazem avisos, mas receitas. Isto é, em vez de nos alertarem para os perigos do açúcar, até nos dão dicas sobre diferentes formas de formas de enfiarmos ainda mais açúcar no nosso corpo. 

Já o “Beba com moderação” do álcool é uma sugestão que fica no ar, feita com a complacência de um velho amigo (tipo, “whatever, man, é contigo”). O dedo apontado ao fumador, presumível culpado sem lugar a prova em contrário, acusando-o da desgraça própria e alheia, torna-se a palmadinha cúmplice nas costas do consumidor de álcool, enquanto a outra mão vai enchendo o copo. No final, “Beba com moderação” pode até ser contraproducente: um tipo que leve o aviso à letra, e fique a noite inteira à espera que uma tal de moderação apareça para beber com ele, vai acabar por se enfrascar e beber a garrafa inteira. 

Desde há uns anos que os fumadores se tornaram o bode expiatório da nossa sociedade. Estes proscritos são constantemente perseguidos, acusados de todos os crimes e vêem as suas liberdades e direitos cada vez mais reduzidos. No fundo, os fumadores são como o povo Judeu do nosso tempo: a sua presença é expressamente indesejada na maioria dos espaços públicos, sendo escorraçados para guetos sobrelotados e sem condições. E tal como os judeus durante o Holocausto, os fumadores não só são obrigados a assistir a atrocidades como aquelas imagens que vêm nos maços, como estão também em contacto diário com grandes quantidades de cinza. 

Mas ao contrário de uma religião, os fumadores não procuram converter ninguém. Até dizem: “nunca fumes, não experimentes sequer”, “faz como eu digo, não faças como eu faço”. Isto é o mesmo que uma testemunha de Jeová ir bater-vos à porta e vos pedir para que não se juntem a eles.

(continua...)



Jovem feiticeiro

Vou escrever uma série de livros sobre um jovem feiticeiro que trabalha numa gráfica. Vai chamar-se "Harry Plotter".